Setores de pescados e madeira temem colapso com seguimento da tensão comercial
Paulo Roberto Pupo, superintendente da Abimci (Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada Mecanicamente), disse à CNN que tinha saído da reunião interministerial com o governo com “a sensação de recado passado”.
Da última terça-feira (15) para cá vê, contudo, pouco andamento nas discussões comerciais com os Estados Unidos e “uma deterioração nas relações diplomáticas”.
“Falei ‘ministro, vamos pensar na pior hipótese possível, chegar dia 1º sem acordo, como fazemos com o que esta em água?’ Uma pergunta que fica sem resposta. O governo absorveu, a expectativa era de que fosse atrás, mas não aconteceu, e a sensação é de que piorou com declarações políticas.”
Os esforços do Executivo por um acordo têm enfrentado dois entraves principais: a dificuldade em encontrar um interlocutor oficial na Casa Branca e a tensão política entre o republicano e o petista.
O empresariado defende que as discussões sejam pautadas em questões técnicas e comerciais, buscando evitar o máximo possível a rusga ideológica entre Lula e Trump.
“Não tem nada haver com a briga política, a gente não tem alternativa, a gente precisa de um resgate do governo até que alguma negociação aconteça”, disse à CNN Eduardo Lobo, presidente da Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescados), acrescentando que irá enviar uma carta ao presidente da República pedindo uma linha de crédito de até R$ 900 milhões para poder manter a saúde operacional do setor.
Pupo explica que a prorrogação é necessária para dar fôlego diplomático aos negociadores e logístico para os exportadores poderem descobrir como vão se adequar ao tarifaço.
Segundo o superintendente da Abimci, a transição da produção do setor para outros mercados é “praticamente impossível”, devido ao tempo necessário para readequar as normas e certificações de um produto que ia para os EUA.
O presidente da Abipesca pondera que “da reunião para cá, [o cenário] escalou, está tensionado. Nós empresários estamos assistindo de mãos atadas, sem qualquer tipo de possibilidade de contribuir ou de intervir no que está acontecendo”.
“O governo até sugeriu que o setor privado faça pressão aos importadores para que estes façam pressão no governo americano, mas isso para o setor de pescados não funciona. O importador americano de pescados não vai ligar para o presidente baixar tarifas, vai comprar mais barato do concorrente”, alerta.
O presidente da Abipesca lamenta que, depois de tomado o espaço dos peixes brasileiros na mesa de jantar norte-americana, dificilmente o produtor nacional vai conseguir voltar a ocupar esse “espaço conquistado com anos de investimento em qualidade, competitividade e fornecimento contínuo”.
70% dos pescados exportados pelo setor vão aos EUA. Hoje, o peixe brasileiro é embargado de entrar no mercado europeu desde 2017. Lobo vê uma perspectiva de melhora no cenário com o acordo de livre comércio Mercosul-UE (União Europeia), contudo, diz que é necessária uma ação urgente para garantir a sobrevivência do setor.
Paulo Roberto Pupo reforça que “os próximos dias serão cruciais, ou alguma coisa acontece, senão congela inteiro o setor, não tem como rodar”.
No momento, o superintendete da Abimci vê o empresariado como “refém da negociação, passageiros nesse carro”. Para fortalecê-la, defende que sejam trabalhados argumentos técnicos, como a complementaridade entre as pautas produtivas brasileira e norte-americana.